Minha vida está desmoronando por causa dessa criança.

Transtorno Oposicional Desafiador

Pergunta: 

Meu marido e eu somos casados e felizes, temos uma filha de 2 anos. Imploro por alguma orientação.

 Minha vida está desmoronando por causa dessa criança. Minha filha tem um comportamento que eu chamo de surto: grita histericamente por horas seguidas sem que nada a acalme.

Não sai lágrima alguma, não tem soluços, apenas gritos medonhos! Ela fica gelada, suando muito e violenta.

Entra em luta corporal com quem tentar toca-la; se pegar no colo ela chuta, morde, arranha e dá socos de forma brutal e assustadora!

Bate com a cabeça no chão e nos móveis, se debate e tudo sem parar de gritar por um segundo sequer!

Ninguém mais dorme aqui em casa porque essa cena dura no mínimo 5 horas.

No início ela só fazia isso à noite, mas agora virou hábito: o surto tanto se inicia quando é ela contrariada como pode começar sem razão de ser, no meio de uma brincadeira ou de um desenho que esteja assistindo, por exemplo.

Mas o detalhe é que ela só surta dentro de casa, quando está comigo e/ou com meu marido!

O show para instantaneamente com a chegada de uma terceira pessoa dentro de casa!!!

Os gritos dão lugar a um semblante sereno em 3 segundos, como se nada tivesse acontecido assim que ela vê alguém diferente de mim ou do meu marido!

Ela chega a sorrir e jogar beijinho imediatamente após de 3 horas direto de surto, assim que vê alguém diferente!

Já cheguei a passar madrugadas inteiras chorando enquanto dava voltas pelo quarteirão com ela no colo, pois era abrir o portão de casa e os gritos começarem!

Como essa criança não dorme, gente?!

Não preciso nem dizer que estou vivendo sob efeito de calmantes, que perdi meu emprego, que os vizinhos batem a nossa porta para saber o que está acontecendo, que familiares ameaçam chamar a polícia e que ninguém acredita na gente ou trata o assunto com seriedade...

Os gritos são apavorantes demais e realmente parece que ela está sendo torturada fisicamente!

Estou tendo crises de pânico quando vai chegando o horário de busca-la na creche e não consigo mais sentir amor por minha filha por conta disso tudo, apenas raiva!

Já pedi ajuda na creche onde ela fica e tanto a diretora como as berçaristas me ironizaram e disseram ser impossível ela ter qualquer tipo de comportamento semelhante, pois é a criança mais dócil e esperta da escolinha.

Parentes e amigos dizem a mesma coisa, inclusive insinuam que se ela faz isso dentro de casa é por causa de maltratos nossos ou simplesmente birra!

Já levei também em inúmeros hospitais e clínicas: fisicamente normal, perfeita!

Durante as crises já tentamos: carinho, colo, palmada, botamos para dormir na nossa cama (dorme até hoje sequer diminuiu o volume dos berros), dar Dipirona para excluir a possibilidade de ser dor, já deixamos no box do banheiro em baixo de água fria, oferecemos alimentos, água, música, desenho animado...

Nada disso fez com que ela abalasse a expressão de pânico nem os gritos!

Tinha dias que ela dormia às 5 da manhã e acorda às 7h para ir à creche cantando e sorrindo, como se nada tivesse ocorrido!

E geralmente ela começa a se acalmar quando vê eu e meu marido chorando copiosamente. Parece que entende!!!

Não, não brigamos nem gritamos dentro de casa, nos amamos e respeitamos.

Sigo a linha da pediatria radical que é extremamente contra violência com crianças, seja por palmadas ou punições agressivas.

Quase nunca a deixei chorando sozinha para dormir ou neguei algo em nome da disciplina!!!

Bem, no ano passado, após 4 meses de tortura diária e após ouvir de muitos profissionais que não receitariam nada para a criança saudável, resolvi por conta própria dar a ela Maracujina. Dei por uma semana apenas.

Acabaram as crises como mágica e ela continuou hiperativa mesmo tomando por dia o dobro da dose recomendada para adultos.

Nem soninho durante o dia sentia.

Agora, passados 4 meses os surtos voltaram, idênticos.

Maracujina não faz mais efeito algum.

Com um agravante: passou a surtar na rua também.

Semana passada houve um episódio onde eu a trazia pela mão da creche, sorrindo e brincando quando ela se jogou no meio da rua e começou a gritar e bater com a cabeça no asfalto!

E eu não conseguia levanta-la porque ela me agredia muito, tudo isso com os carros passando!

Os vizinhos todos desceram, a rua parou! Ninguém ajudou, apenas me olhavam incrédulos.

Tive que arrasta-la pelo chão até a calçada para que não fosse atropelada, machuquei ela toda, pensei que fosse quebrar o bracinho de tanto que ela lutava e se debatia!

Dessa vez meu marido bateu muito nela em casa e desde então bater tem sido o freio que escolhemos para ela agora.

E não houve nenhuma mudança de rotina/alimentação/escola/horários etc. Não tenho estrutura física nem psicológica para passar por tudo isso novamente, imploro por uma orientação!

Nunca médico algum ouviu falar de algo parecido, nenhuma mãe que eu conversei também não.

Ela não fala ainda mas demonstra inteligência bem desenvolvida e perfeita compreensão de tudo o que ouve.

Obedece frases complexas realizando tarefas sem que precisemos repetir a ordem.

Realmente (pela primeira vez ganhei um beijo da minha filha neste ano) ela é doce e esperta.

Porém, observamos que já sabe mentir quando quer atenção, dizendo que o papai me fez dodói sem sequer meu marido ter se aproximado dela; e só parar de chorar (baixinho) quando eu digo ai-ai-ai!

Para repreender o papai e dou beijinho no dodói imaginário.

Detalhes técnicos: somos filhos de lares desestruturados.

Mas optamos por estudar e trabalhar para constituir uma família como nunca tivemos. Nossos familiares são: por parte de mãe, todos com doenças mentais graves como esquizofrenia (tanto na minha família como da dele!),

E por parte de pai, viciados em drogas e marginais (inacreditavelmente, também em ambas as famílias).

Tanto que nem temos contato com familiar algum, trabalhamos e pagamos nossas contas sozinhos.

Imagine meu medo de que essa criança pode carregar de problema mental nos genes!

Perdoe de coração o tamanho do texto, foi o melhor que eu pude fazer para tentar dar a dimensão do problema.

Obrigada pela atenção e parabéns pela extrema competência e excelência nos serviços prestados.

Resposta: 

Somente um profissional que avaliasse cuidadosamente o caso e a criança poderia dar um preciso diagnóstico para isso que você chama de surto.

Eu vou aqui me referir a estes episódios como crises de birra.

As crises de birra podem ter uma graduação de leve até graves.

No caso de sua filha, eu as consideraria graves.

As birras também podem ter diversas causas, qquelas mais comuns, como chamar a atenção, até manifestações de outros transtornos da infância, como:

 

  • Hiperatividade

  • Transtorno Desafiador e de Oposição

  • Transtorno Global do Desenvolvimento

  • Entre outros.

Nestes casos, medicações são indicadas e necessárias.

O fato de estas crises só ocorrerem em casa ou na presença de vocês, eu ia te dizer, é questão de tempo.

Mas você mesmo já está percebendo isso...

Portanto, vocês precisam de ajuda.

Procurem um psiquiatra infantil da sua cidade e explique tudo o que está acontecendo

.Atenciosamente, Dra. Susan Mondoni.