Perdi meu RG, até dei uma procurada no meio da bagunça que é a minha casa.

Tratar TDAH ou DDA em São Paulo

Depoimento:

Não é difícil eu ouvir dos meus amigos e pessoas que convivem comigo comentários do tipo: “Ah, a Cristina é desligada mesmo” ou “Tinha que ser a Cristina!”. O meu jeito de ser, assim desligada, já se tornou uma característica minha e motivo de muitas risadas entre as pessoas que convivem comigo. Eu não ligo, acabo rindo junto e até faço piadas comigo mesma.

 

Até aí tudo bem, tudo muito engraçado, mas só até certo ponto. A partir do momento que esse meu jeito começa atrapalhar a minha vida, começo a pensar diferente sobre o assunto e já não encaro da mesma forma.

Perdi meu RG. No começo fiquei preocupada, até dei uma procurada assim meio “por cima” no meio da bagunça que é a minha casa. Não encontrei. Tudo bem, não é tão grave assim viver sem RG. (risos), até porque posso tirar a segunda via e qualquer hora eu faço isso.

Mas não agora, deixa pra depois!

O bom de tudo isso é que, não sei se só eu tenho esse privilégio, ou todas as pessoas que são “desligadas”, mas com certeza tem um anjo que me acompanha.

Um dia desses fui ao banco pagar uma conta e um dos gerentes do banco veio até a minha direção e disse:” É você!”.

Na mesma hora eu agradeci a Deus e pensei: “Fui sorteada, ganhei uma bolada!”.

Não, era o meu RG.! Eu tinha esquecido lá. Ah, que bom, não é legal ficar sem um documento assim tão importante, né? (Risos).

Eu só não fiquei totalmente plena e feliz porque agora descobri que tinha perdido também o meu CPF. Será que eu deixei no banco? Tomara, assim o gerente guarda pra mim e quando por acaso eu voltar lá pra pagar alguma conta ele me dá, né?

Mas mesmo assim eu dei uma procurada pelas minhas coisas para desencargo de consciência.

Bom, deixa pra lá... Depois eu tiro a segunda via, fazer o quê? Um dia desses eu encontrei o meu CPF, mas se eu disser que no momento eu não me lembro aonde, você acredita? Só me lembro que fiquei feliz e aliviada.

Consegui um emprego! Agora que estou tomando Rivotril não sinto tanta ansiedade, então estou AGÜENTANDO ficar por lá.

Diariamente, no fim de um longo dia de trabalho, eu volto para o escritório decidida a pedir demissão, mas acabo desistindo.

Com essa história de emprego e tal, decidi arrumar uma agenda pra ver se eu conseguia organizar um pouco minhas coisas...

Agora eu pergunto: Você usou a minha agenda? Não? Nem eu! Apesar de ter milhares de coisas pra marcar, que eu não poderia esquecer de jeito nenhum, compromissos importantíssimos e coisas que eu deveria prestar conta no escritório depois, mesmo assim eu não usei.

Ah, mas também não estou tão mal assim, né! Eu usei sim.

Tem uns nomes marcados nela, fora algumas figurinhas de chiclete. Jusciléia, Elvira Nascimento, Ivone, uma tal de Ana do restaurante, Daniela (na hora do almoço!) e seus respectivos telefones. Só que tudo isso marcado numa mesma folha e na verdade eu não sei o que devo fazer com tanto telefone.

Não sei se tenho que ligar pra agendar alguma visita ou pegar algum dado que estava faltando ou mesmo ligar pra conversar um pouco (risos).

Todos os dias, antes da nossa equipe sair pra trabalhar, o chefe faz uma reunião de uns 30 minutos mais ou menos.

Dessa reunião eu só aproveito o começo, quando ele fala: “Então pessoal, hoje...” e depois: “Boa sorte e boas vendas!”.

E no meio da reunião eu fico pensando sobre muitas coisas importantes, como a ração dos cachorros que eu me esqueci de deixar e os coitadinhos vão passar fome o dia todo (e tenho certeza que meu anjo da guarda não vai colocar) e se eu larguei a janela da minha casa aberta ou não.

Depois me lembro de algum fato que aconteceu comigo quando eu era criança e em seguida que eu preciso tingir o meu cabelo porque está medonho e o que será que eu vou comer no almoço hoje?

Quando acaba a reunião e todo mundo sai pra trabalhar, entro na Van que leva a gente até o roteiro e no meio do caminho eu percebo que esqueci minha folha de relatório e os catálogos que deveria entregar na rua.

Fora isso, ouço o comentário do pessoal sobre as coisas que o chefe disse na reunião e eu penso com os meus botões: “Onde será que eu estava que não ouvi isso?”.

O nosso material de trabalho é composto de caneta (já perdi várias), catálogos (sempre me esqueço de pegar no escritório e tenho que ficar pedindo p/ os outros depois.), uma prancheta (já estou usando a terceira porque perdi as outras duas) e a folha de relatório (que graças a Deus, sempre tem um abençoado que já pega duas e sempre me dá uma, porque também esqueço!).

Ai, tocou o telefone!! Abaixa a televisão, o rádio, não fala comigo agora e se possível me deixa ficar de olhos fechados pra eu entender o que a pessoa está falando do outro lado da linha.

Se for o celular então, na rua, minha nossa senhora!! Em um buraco aí pra eu entrar?

Não, não tenho vergonha de atender o celular em público, mas tem tanto barulho que eu não consigo conversar direito.

Está passando um programa tão interessante na televisão...

Numa situação dessas eu tenho dois comportamentos diferentes. Se for muito interessante mesmo, um assunto pelo qual eu sou fascinada, pode cair 20 torres do World Trade Center do meu lado que eu continuo do mesmo jeito.

Se for alguma coisa interessante, mas nem tanto, eu preciso fazer um grande esforço pra me concentrar e não fale comigo!

Você já viu uma pessoa “desligada” tomar remédio? É bem engraçado, mas perigoso...

Eu estou fazendo um tratamento dentário e tive que extrair alguns dentes, junto com isso tive uma colite de fundo emocional.

Conclusão: Fora o antidepressivo e o calmante que já ficam do lado da minha cama porque tenho que tomar ao deitar, tive que tomar mais 5 remédios em horários diferentes.

Tive vontade de me fechar num quarto com todos os remédios, um despertador e um galão de água e passar uns 15 dias só assim.

Quando eu não esquecia os remédios em casa, eu levava e esquecia de tomar.

E quando eu lembrava de tomar, esquecia o horário e acabava tomando fora de hora. Já perdi a conta de quantos tratamentos com remédios e antibióticos comecei a fazer e não terminei.

Ou se terminei, foi de uma forma muito precária.

E nas horas mais íntimas, quando vou ter relação sexual? Hummmm! Qualquer coisa tira a minha atenção. Ou eu me concentro tanto que até entro em transe ou a pessoa que está comigo tem que ser muito criativa e fazer uma super produção teatral com direito a malabarismos e tudo mais pra prender a minha atenção, se não, perco o interesse.

Mas se o cachorro latir ou tocar o telefone, pronto!

Escrever, como já deve ter notado, é uma das coisas que adoro fazer. Esse canal, da escrita, me permite expressar tudo o que penso e sinto, porque falando não vai, me embolo toda e esqueço palavras e até mesmo o que estava falando.

Só que esse “canal” da escrita tem que ser pelo computador (risos), porque é mais rápido e prático. Escrevendo à mão eu me canso logo e acabo desistindo. Escrever é uma das coisas que faço melhor, até porque eu pratico bastante.

Até há pouco tempo eu tinha o português péssimo, esquecia das vírgulas e acentos. Mas a sorte foi que eu me apaixonei por uma pessoa e a gente se correspondia muito.

Como tudo o que é novidade pra mim vira uma obsessão, eu escrevia tanto e rascunhava mil cartas e ia corrigindo e escrevendo mais e mais, que passei a melhorar o meu português.

Tinha que fazer bonito e impressionar! Ainda erro algumas coisas, mas leio e releio mil vezes antes de imprimir qualquer coisa que escrevi.

Bom, estou empregada, tenho uma vida agradável, moro com uma pessoa que amo, mas... pensando bem, acho que devo mudar de emprego. E mudar de casa também, apesar de eu gostar muito dessa que estou. Poderia largar tudo e sair pra viajar (como já fiz outras vezes) e até mesmo arrumar outra pessoa pra namorar, apesar de eu amar muito a atual.

Mas a minha cabeça funciona assim: Mudar, mudar, mudar, mudar...

Nunca me sinto com os pés no chão, é como se eu estivesse boiando na água e não tivesse controle da minha vida.

Quando o vento me sopra para o lado eu vou e mesmo que estiver ótimo ali do lado, o vento me sopra para o outro lado e eu não faço nada pra me segurar, porque quero ver o que tem do outro lado... (risos).

Pois é, essa é minha vida, geralmente engraçada, às vezes angustiante, mas eu sinto uma vontade imensa de ser diferente.

Ou melhor, ser igual à maioria das pessoas, pelo menos nas atividades normais do dia-a-dia.

Esse meu jeito me incomoda muito e sinto que perco muitas oportunidades por eu ser assim. Não vejo a hora de sarar disso, não sei se com remédio ou terapia, mas quero melhorar.

Quero soltar esse furacão que existe dentro de mim e tenho certeza que vou brilhar muito na vida. Vocês ainda vão ouvir falar de mim!

OBS: Eu sei que o texto está sem parágrafo e não está alinhado, mas eu não sei como mudar isso. Abandonei o curso de computação na metade e não deu tempo de aprender a alinhar os textos.

Esse é o meu dia a dia de DDA ou TDAH ou Déficit de Atenção, podem escolher o nome porque é tudo a mesma coisa!