Não me lembro de já ter terminado sozinho um projeto, nem profissional, nem pessoal.

Tratar TDAH ou DDA em São Paulo

Depoimento:

Durante toda minha vida tive certo problema de concentração, acompanhado de uma enorme dificuldade de me expressar, seja de forma oral ou escrita, mas principalmente oral.

Não que seja fácil escrever realmente não é, mas é mais fácil que falar. Ultimamente o fato de receber e enviar muitos e-mails tem me possibilitado exercitar um pouco mais a minha escrita.

Bem, voltando ao assunto da falta de concentração. Sempre fui chamado de "desligado", "no mundo da lua", "problemático", "louco", algumas vezes de "inteligência desperdiçada". Não estou muito certo da conotação que cada pessoa dava à última classificação - se eu não conseguia usá-la ou se outras pessoas não a percebiam - mas não importa, não faz diferença. Vou descrever o que é, na minha experiência de vida, concentração: é um estado de tormenta constante, com sons, imagens, pensamentos, tudo tirando minha atenção de meus objetivos. O mínimo vacilo e lá estou eu desviado de meus objetivos, algumas vezes sem ao menos lembrar-me que objetivos eram.

Muitas vezes me diziam que eu só não tentava me concentrar no que eu não gostava. Não era bem isso que acontecia. Só posso dizer que me concentrar no que eu gosto é tão difícil quanto no que eu não gosto. A diferença é que o que eu gosto me dá mais força de vontade, uma vontade de lutar muito maior do que o que eu não gosto. Mas a luta é a mesma. A vida inteira. O tempo todo.

Mas esta luta tem suas compensações. Consigo ver dezenas de soluções alternativas para um problema que me interessa e consigo fazer uma análise inicial de todas as alternativas encontradas: viabilidade, dificuldade de execução, possibilidade de conclusão, nível de esforço necessário, perfil das pessoas que deverão trabalhar no projeto. Consigo me lembrar de todos os processos, conceitos, prós e contras envolvidos na solução…

Só que não consigo passar deste ponto. Não consigo terminar o projeto. Na verdade, não me lembro de já ter terminado sozinho um projeto, nem profissional, nem pessoal.

Normalmente, não consigo terminar nada, desde a leitura de um livro até a criação de um sistema em uma linguagem de computador qualquer. Não consigo me ater a uma linguagem de programação específica, como fazem muitos especialistas, e assim, nunca consigo ser um especialista em nada, somente um generalista. Conhecer um pouco de tudo pode ser bom, mas às vezes é necessário conhecer alguma coisa bem.

Meu interesse por algo nunca dura o suficiente para terminar nada: estudei trompete, depois flauta, depois violão e nunca me tornei exímio instrumentista em nenhum deles, com a exceção do trompete que abandonei depois de seis ou sete anos estudando, graças à insistência de minha família. Não que eu não gostasse. Eu gosto muito de tocar, mas não tinha paciência de ficar estudando alguma coisa por muito tempo. Nunca terminei um curso de idiomas: estudei na escola três anos de inglês, dois de francês, fiz cinco anos de inglês e quando cheguei no nível Avançado I, abandonei. No curso de Ciência da Computação, apesar de ter tirado nota entre 95 e 100 em algumas disciplinas consideradas difíceis, tive problemas com outras, e cheguei a fazer certas disciplinas quatro vezes. Também tranquei matrícula no curso de Serviço Social quando estava no terceiro período. Tenho alguns projetos pessoais que tinham grande chance de dar certo se não tivessem sido abandonados antes do fim.

No trabalho, isto, somado ao fato de que tenho dificuldades de compreender ordens de chefes (por falta de atenção), seguir planos, concluir tarefas simples e decidir sobe prioridades de tarefas diferentes, tem me prejudicado muito. Muitas vezes dou prioridade a tarefas que sei que não são prioritárias e deixo outras mais importantes de lado.

Com estas dificuldades fico constantemente ansioso. Ansioso por terminar uma tarefa que não acaba nunca. Ansioso para iniciar um novo projeto. Ansioso por não conseguir terminá-lo. Ansioso porque me vejo sem ação diante da pressão. Ansioso porque não consigo na maioria das vezes sair deste estado de "não ação". Ansioso porque o tempo vai passando e eu não faço nada. Ansioso porque poderia ter começado a agir e ainda não comecei. Ansioso porque tenho que agir. . .

Certa vez fiquei dois dias sentado na mesma posição sem conseguir fazer nada. E quando eu digo nada, é nada mesmo: não saí de cada, não fui ao banheiro, não comi, não bebi água, não consegui atender ao telefone. Eu sabia que teria que fazer alguma coisa, mas estava ansioso demais porque não conseguia fazer nada e esta ansiedade me deixava mais "congelado" ainda. Numa luta muito grande, consegui dar o primeiro passo - me levantei - e a partir daí a cadeia se quebrou, tornando possível que eu fizesse outras coisas.

É difícil descrever o que acontece. As palavras expressam muito pouco do tormento que sinto quando isto acontece, mesmo que por um período de poucas horas.

Outra coisa que é difícil para mim é dormir e acordar. Tenho insônia sempre e não ouço o despertador, por mais alto que eu o coloque. Não sou daqueles que ouve o despertador, dá um tapa e volta a dormir. Eu simplesmente não o ouço e quando eu acordo, horas depois da hora desejada, vejo que estava tocando o tempo todo e me pergunto como consegui não ouvi-lo. E após uma pequena e atormentada noite de sono, passo o dia com uma sensação constante de cansaço. É óbvio que isto me leva a um baixo desempenho e ao problema de ansiedade que já descrevi que por sua vez me faz dormir pouco e mal, num ciclo que não se quebra.

Durante certas ocasiões (férias, feriados) consigo por algumas coisas em dia e me concentro em minha organização pessoal. Isto sempre me ajuda a me controlar: horários fixos, atividades fixas, tudo fixo. Quando consigo me organizar e me manter organizado por um tempo, consigo controlar a minha ansiedade e vivo melhor. Só não consigo me concentrar em uma coisa só, continuo "fugindo para o mundo da lua", esquecendo de pagar contas, perdendo facilmente o interesse pelo que estou fazendo, me atrasando e esquecendo compromissos.

Tudo que descrevi me leva a ter uma grande dificuldade de me abrir com qualquer pessoa e ter uma tendência de sentir pena de mim mesmo, fazendo-me esquecer das pessoas que estão em volta. Graças a uma autovigilância, tenho conseguido nos últimos anos me controlar neste aspecto e não pensar só em mim mesmo.

A minha falta completa de organização, minha ansiedade, falta de concentração, falta de sono, e algumas vezes falta de energia me tornam um profissional difícil de lidar e muitas vezes "explodo" com algumas pessoas o trabalho, especialmente com aquelas que me pressiona muito. Observei que só "explodo" quando existe uma falha no projeto em discussão, um problema na coordenação do projeto. Mas quando exponho estas falhas de forma irada na realidade estou mascarando também minha inabilidade de organizar qualquer coisa. Não faço isso de forma consciente - na realidade quando estou irado não faço nada de forma consciente, somente impulsivamente.

Pensei que tivesse algum problema mental, pois me recordo que quando era pequeno, 3 ou 4 anos de idade fiz vários testes - me lembro nitidamente de alguns e da sala em que os testes eram feitos - e esta falta de concentração, esta ansiedade existem desde aquela época. Vem também desde a minha infância a dificuldade de lidar com pessoas e, por outro lado, a facilidade de me refugiar no meu mundo particular.

Pensando no meu mundo particular, tenho visitado ele muito menos vezes do que na minha infância, mas quando isto acontece, a ansiedade torna quase impossível sair dele. Eu chamo de meu mundo o mundo dos meus pensamentos, quando me desligo de qualquer estímulo externo para pensar.

Posso permanecer horas pensando sem que isto me canse ou me chateie. A maior parte de meus projetos de sucesso surgiu de períodos como estes, onde não anoto nada, não falo nada, apenas crio. E quando termino não tenho somente uma idéia, mas um projeto meticulosamente pensado e testado em minha cabeça.

Não me incomoda me desligar do mundo para algumas vezes criar coisas práticas, mas a verdade é que poucas vezes este desligamento gera projetos que possam ser usados no meu trabalho.

…estou muito triste comigo mesmo ultimamente, vendo que não consigo manter contato com as pessoas: não consigo manter um contato regular com meus amigos de colégio, meus colegas de faculdade, meus ex-colegas de emprego, e outros amigos, parentes, pessoas de quem eu gosto. Me desligo muito fácil das pessoas. Acho que minha família e minha noiva são as únicas exceções.

Nunca fiz Psicoterapia, não tenho nenhuma doença detectada (os testes que fiz na infância não acusaram nada), minha saúde, apesar do Stress, está boa. O meu pai, quando vivo, apresentava os mesmos problemas. Não era muito evidente, mas ao contar para minha irmã e minha mãe como eu sempre me senti ela me contou que meu pai reclamava das mesmas coisas que eu estava reclamando, exatamente como eu descrevia.