Não consigo organizar pensamentos e idéias nem objetos dentro de casa.

Tratar TDAH ou DDA com Psiquiatra do Einstein

Depoimento:

Estive pensando e cheguei a uma conclusão sobre o que acontece comigo: sou uma pessoa superficial. Isso mesmo, em tudo sou superficial. Não me sinto completa, inteira, nunca. Tenho TDAH e vivo no mundo da Lua.

Passo o tempo inteiro pensando, minha cabeça nunca para, são turbilhões de pensamentos e idéias que surgem e se confundem. Ás vezes idéias geniais, mas nunca completas, nunca me aprofundo nos pensamentos.

Isso acontece também no dia a dia, quando ando na rua, por exemplo. Não consigo prestar atenção nas coisas, não fico atenta aos acontecimentos. Não sei como ainda não fui atropelada! ! Se estou andando, minha cabeça se perde novamente em pensamentos e idéias inacabadas. Outra coisa que me confunde muito na rua são os barulhos. Carros, buzinas, pessoas falando, música nas lojas. . . Isso tira totalmente a minha atenção e se encontro alguém conhecido e paro pra conversar, o barulho atrapalha a conversa e às vezes até esqueço do que estou falando.

Em casa também é um problema. Não tenho noção nenhuma de organização. Do mesmo jeito que não consigo organizar pensamentos e idéias, não consigo organizar objetos dentro de casa. Sinto inveja das pessoas que tem mania de organização, acho lindo, mas é uma coisa que não entra na minha cabeça. Até tento mudar, ser uma pessoa mais organizada, mas não consigo. Minhas roupas nunca são dobradas, minhas gavetas são uma loucura, uma mistura de documentos importantes com recibos, papel de bala, pilhas usadas e novas, fotos. . . Sei que isso é péssimo e atrapalha a minha vida, mas quando começo a organizar tudo entro em "parafuso". Além do tempo que levo organizando tudo (às vezes dias), pois paro inúmeras vezes perdida em devaneios e pensamentos que me tiram a atenção, não consigo saber por onde e como devo organizar as minhas coisas.

Não tenho horário pra me alimentar, pra dormir e acordar, pois odeio horários.

Posso dizer que os momentos melhores quando estou em casa, são aqueles em que fico quieta, ouvindo uma música e pensando. Adoro. Só que isso não me leva a nada, não acrescenta em nada na minha vida.

Adoro ler, mas também leio superficialmente. Quando consigo terminar de ler um livro (pois muitas vezes me desinteresso no meio da história e paro), depois é difícil explicar sobre o que eu li. Até sei, mais ou menos o que li, meio por cima, mas não consigo me expressar e contar a história. E durante a leitura, paro inúmeras vezes porque é como se me desse um "apagão" e me perco em pensamentos que nada tem as ver com o que estou lendo.

Agora mesmo, escrevendo tudo isso, já parei várias vezes e até esqueci o que estava escrevendo. Qualquer barulho me tira a atenção e me desconcentra.

Adoro escrever, mais do que falar, pois me expresso melhor. Só que pra mim é mais fácil no computador, pois canso rápido escrevendo à mão e logo desisto.

Assistir televisão é a mesma coisa, começo prestando atenção, mas logo estou olhando para a tela e com a cabeça em outro lugar. Nem sei dizer o que estava assistindo e sobre o que estavam falando.

Em conversas é assim também. Se a pessoa é animada e prende a minha atenção, me fazendo rir e interagir com ela, até presto atenção. Mas se é uma conversa mais calma, onde tenho que me concentrar no que a pessoa está falando. Pronto! Já desligo e vou para o "mundo da Lua".

Gostaria muito de aprender a dirigir, pois sei que é útil, mas tenho certeza que pra mim vai ser difícil, porque guiar exige muita atenção, coisa que em mim não funciona direito. Não tenho muita noção de espaço e tempo.

E fora a falta de atenção, um curso na auto-escola dura algum tempo, coisa que me desespera totalmente. Tem horários.

Estive fazendo a conta das coisas e cursos que comecei a fazer e parei na metade, mesmo sendo coisas do meu interesse e que gosto. Nossa. . . Um absurdo.

Desde pequena tinha dificuldade em ficar na escola. Chorava, queimava de febre e não queria ir.

Nunca conseguia prestar atenção nas explicações dos professores, e nas matérias mais complexas sempre ia mal. Durante as aulas, além de ficar “viajando", às vezes ficava fazendo desenhos no caderno. Não fazia as lições de casa, não lia os livros recomendados, fazia os trabalhos escolares em cima da hora e estudava para as provas um dia antes e sem noção nenhuma do que estava estudando, pois não prestava atenção nas aulas.

Depois vieram os cursos inacabados: Natação, ginástica olímpica, desenho, ballet, inglês, datilografia, computação, futebol, curso de culinária, canto, piano, violão. Abandonei todos.

Abandonei a escola no final do 3º colegial. Tentei terminar numa escola estadual, mas também abandonei. Fiz supletivo, mas quase não freqüentava as aulas. Terminei, graças às provas do estado.

Comecei a faculdade de psicologia, mas abandonei.

Resolvi trabalhar com artesanato, parei. Entrei como caixa numa farmácia, mas fiquei só uma semana. Agora trabalho com tatuagens de hena na feira de artesanato da cidade, mas já não agüento mais. Comecei também a fazer bombons pra vender na escola, todo mundo estava adorando, mas parei.

Quando me interesso muito por um assunto, vira uma obsessão. A minha vida passa a girar em torno desse assunto e só penso nisso o tempo inteiro, mas chega uma hora que desanimo e paro.

Tenho pavor à regras, compromissos, horários. Se tenho alguma coisa pra fazer, com hora marcada, não posso fazer mais nada durante o dia todo, pois entro em pânico e quase sempre chego atrasada.

Perco tudo, coisas importantes, objetos (o último foi o meu RG), até amigos, pois me desinteresso por eles.

Sou instável, volúvel. Na minha vida tenho que sempre ter algo muito excitante para eu estar envolvida, mas logo perco o interesse e procuro outra coisa pra me interessar.

Tive vários episódios de depressão, inclusive estou passando por um, acho que o pior. Por quê? Voltei a fazer faculdade, mas já não estava conseguindo ir novamente. Senti um baque, resolvi desistir de tentar, desistir de mim. Estou com 22 anos, me sinto uma pessoa vazia, superficial, frustrada.

Já fiz terapia, trabalhei a minha auto-estima, mas o meu "desinteresse" não muda, não melhora. Mesmo quando não estou deprimida, sou assim, não mudo. Sinto como se eu vivesse em outro mundo e assistisse a vida passar de camarote.

Dentro de mim, eu sei que existe um furacão, sei que sou inteligente e se eu conseguisse ir a fundo em alguma coisa, seria brilhante. MAS NÃO CONSIGO!

Sinto como se uma parte do meu cérebro estivesse anestesiada.

Sinto inveja das pessoas que vão trabalhar todos os dias, no mesmo horário, contentes e satisfeitas. Sinto inveja dos meus amigos que já terminaram a faculdade. Sinto inveja das pessoas interessadas que conversam sobre todos os assuntos. A sociedade, as pessoas, a família, os amigos, todos exercem sobre mim certa pressão para que eu tenha um objetivo na vida, para que eu termine alguma coisa e seja bem sucedida. Sinto-me impotente. Só que eu tenho certeza que não é a depressão que me torna assim, é eu ser assim que me deprime. Eu sempre fui assim e a depressão é só uma conseqüência dessa minha vontade de "andar com as pernas quebradas".