Comecei a tratar meu TDAH com 27 anos

Tratar TDAH ou DDA com Psiquiatra do Einstein

Depoimento:

Um amigo do colégio dizia constantemente que meu tico e meu teco não se comunicavam. Na época eu não entendia isso como bullying, e acho mesmo que não era porque não me sentia ofendida, acho que o objetivo não era agressão. Ou era, irrelevante hoje. O importante é que não me atingia. Achava graça na verdade, porque eles realmente não se comunicavam e as vezes acabava agindo fora do padrão. Cresci agindo fora do padrão, então me construí em torne desse tal padrão, e assumi que determinadas reações faziam parte de quem eu era, da minha personalidade e que não adiantava lutar contra. Se eu faço determinadas coisas e as pessoas confirmam que essas coisas definem quem sou, bom, então devia ser verdade. Certo? Eu era essa criança, e posteriormente essa adolescente meio fora da casa. Lutar contra não era nem uma possibilidade, porque não era visto como um problema, era só meu jeito de ser. Um pouco distraída, um pouco desastrada.

Apresentei problemas no colégio quando era muito pequena, a professora da época não entendia o tipo de criança que eu era e de certa forma me castigava ou tentava me colocar nos trilhos. Meus pais notaram essa falta de entrosamento e me matricularam em outro tipo de escola, mais elitizada, como se o valor da matricula fosse equivalente a qualidade do ensino, assim supostamente melhor. Para os meus pais saúde e educação, até hoje, é a regra máxima. Hoje sou professora e consigo entender que o problema não era necessariamente o colégio, e sim o despreparo da profissional que me atendia. De qualquer forma, tive sorte porque encontrei um ambiente mais saudável nesse lugar novo. Meus pais agiram mais por intuição do que por instrução técnica, pedagógica. A intuição deles foi pontual, talvez eu não tivesse superado alguns degraus importantes se eles não tivessem atuado no momento exato. O novo colégio dava atenção especial a todos os alunos, era um ambiente afastado da cidade, sem distrações, os alunos viviam uma imersão naquele espaço, existia um sentimento de coletividade, de união, de afetividade. Vivi nesse lugar dos sete aos 18 anos. O auxílio dos professores, da minha família e dos meus amigos me alavancaram. Acho que o sentimento de pertencimento ao lugar e as pessoas daquele lugar me davam autoconfiança para estar lá, para viver, para me comunicar, para me socializar, para me aceitar, sem me questionar muito, sem sofrer. A orientação por uma convivência comunitária trazia um sentimento de compreensão, solidariedade, empatia. A aceitação social que eu recebia tornava o meu jeito de ser menos problemático, mais viável. Tinha uma normalidade na minha falta de normalidade. Então o problema que hoje eu seu que tenho, não era visto como um problema de fato, só um jeito contornável. Não sei sinceramente o que teria mudado se eu tivesse tido uma orientação pedagógica e psicológica na época. Talvez tivesse sido ainda mais fácil. Ou talvez tivesse causado outros tipos de problemas. A verdade é que eu dei sorte, sobrevivi, não sofri e fui muito feliz. No final do colégio consegui ingressar em uma universidade de bastante visibilidade, então podemos considerar que minha fase escolar foi bem sucedida.

Depois do colégio inicia-se uma fase de transição para a vida adulta. Nós nos sentimos maduros, apesar de não sermos. A vida começa a pedir maturidade, apesar de não termos. Eu fui carregada no colo até aquele momento, pela família e pela escola. Mas perde-se, naturalmente esse apoio. Eu já não tinha mais a proteção do colégio e queria provar para a família, para a sociedade, para mim mesma, que era independente, autossuficiente, e todas as asneiras subjacentes. Ou seja, ao querer provar algo que eu não era e nem tinha capacidade de ser, acabei provando o contrário, a minha imaturidade, e minha inabilidade de viver uma vida sem uma rede de pessoas que garantissem a minha segurança. O problema que tenho pode ter influenciado as atitudes infantis da época, mas em maioria era só imaturidade mesmo. A questão é que ao agir de forma irresponsável, ao tentar me libertar de alguns fios, algumas coisas começaram a acontecer, a me surpreender, e não em um bom sentido. Eu comecei a me ver de frente a alguns perigos sério. Alguns desses perigos eu conseguia enxergar e isso já era suficiente pra me assustar, mas a maioria eu não enxerguei, passei por cima e só fui me dar conta do quão perto do risco eu estava anos depois. Eu só ia em frente, fazia, agia, e nada mais.

Não é drama, é um problema sério para mim. Meu médico me deu um livro bastante didático pra ler e entender o meu problema. Com letras bem grandes, frases curtas, simplificadas e espaçadas. Uma das frases que mais me chamou a atenção dizia que o problema de tudo era meu, mas que a culpa de tudo não era. Ocorreu que nasci assim, é uma condição genética, mais comum do que nós imaginamos. Eu sempre achei que tinha algo meio torto, só não sabia o que, e principalmente não sabia em quais limites isso poderia me levar e o quão violentamente poderia me quebrar.

Os primeiros indícios foram as batidas de carro. Eu não era uma motorista ruim. Ainda acho que dirijo bem e tento mudar essa fama que adquiri. Sabe aquela regra do só acredito vendo? As pessoas me viram fazendo algumas barbaridades no volante, nunca alterada com álcool ou qualquer outro fator externo, então elas passaram a considerar que eu era uma motorista ruim e que bater o carro constantemente era em virtude da minha falta de habilidade, da minha distração crônica, do meu descompasso. Uma das consequências vividas pelas pessoas que tem esse mesmo problema que eu tenho são os estigmas que o resto do mundo impõe para elas. Nós perdemos a credibilidade, e o que é pior, as vezes nós mesmos desistimos e deixamos de nos dar credibilidade. Nós abraçamos o que as pessoas passam a dizer que é nosso jeito (inadequado) de ser. Não é o meu jeito de ser, desculpa mundo, você me viu errado, eu também me vi da mesma forma equivocada.

De batidinhas a batidonas, eu sempre me superava, tanto na gravidade, quanto no ridículo da falta de atenção. Meu pai, muito bravo, dizia que ia me comprar um trator porque só assim para parar de fazer estrago. Acho que ele pensava na franquia, o seguro do meu carro cobria terceiros. Chegou um certo momento em que parei de acionar a franquia para o meu carro porque havia atingido um valor impraticável. Acionava do para o pobre coitado que tinha dado o azar de cruzar comigo no transito e meu carro ficava batido eternamente. Minha mãe tratava do assunto com mais cuidado, acho que por medo de eu desistir do carro, de dirigir. Ou porque ela se enxergava em mim, somos muito parecidas. Então ela sempre fez o papel de apaziguadora esses momentos. Uma vez, com ela no carro, eu queria provar que dirigia bem. Eu parei um pouco à frente do sinal de pare, o que logicamente me gerou uma bronca. Para tentar mostrar que eu sabia o que era pare, dei ré. Bom, tinha um carro parado atrás de mim. Mas isso foi bem no comecinho, acho que não tinha nem um ano de carteira de motorista. As duas últimas batidas do carro foram mais assustadoras. Uma delas eu atropelei um cavalo na madrugada voltando da faculdade, na outra, a última, simplesmente esqueci que estava dirigindo, não tive reação, não acelerei nem brequei, só fui em frente como se eu nem estivesse no carro. Em ambas ocasiões o estrago foi grande, material e psicológico. No tempo do colégio eu sempre aceitei o fato de ser essa pessoa e de ter um determinado jeito de ser. As batidas de carro contribuíram para um processo de frustração. Obviamente que não queria bater o carro, obviamente que eu não queria andar com o carro batido e escutar piadas sobre a minha má condução. Eu não conseguia me enxergar dessa maneira, não conseguia entender porque isso acontecia, porque agia com tão pouco cuidado. Eu conhecia meu coração e minhas capacidades suficientemente para saber que não era essa pessoa negligente, essa pessoa que não tinha amor pela vida, que não tinha noção do perigo que é dirigir um carro, essa pessoa inconsequente com aquele bem material. Mas as pessoas me viam assim e eu agia como se realmente fosse assim. Do mesmo jeito que eu respondia em tom de graça para aquele amigo que falava do tico e teco, eu contava minhas histórias no transito em tom de piada. Muito riso, pouco siso e pura fuga para não enfrentar o problema de fato.

Entrei para o curso de Artes Visuais, não tenho uma explicação muito profunda para essa escolha. Entrei por gosto mesmo. Acho que eu gostava de viver momentos de introspecção. Eu gostava do fazer manual, gostava dos resultados e gostava de me ver nesses resultados. Eu gostava do processo artístico, de pensar no imaterial, no inominável. Eu me conhecia muito pouco, até então eu agia como reprodutora dos impulsos do meio, talvez seja o mal comum de todos os adolescentes. Acho que foi isso. Acho que foi a chance de buscar uma espécie de autoconhecimento, de mergulhar em mim. Recentemente descobri que introspecção é um dos sintomas desse problema que tenho. Eu sinceramente gosto desse sintoma, mesmo não sendo muito saudável. Acontece que eu preciso desses momentos meus, eu preciso estar comigo e só comigo, me faz bem, me traz paz e chão, me dá centro. Reagir a mim era, e ainda é, mais fácil de racionalizar do que reagir ao mundo. Dizem que o segredo é encontrar um equilíbrio. É saber estar bem na companhia de si e na companhia do mundo. Estou em processo de encontrar este meio-termo.

Essa minha primeira graduação não foi um mar de rosas. Foram diversos altos e baixos, algo de ações minhas, algo de reações aos problemas que me atingiam. No meu segundo ano da faculdade meus pais se separaram e começaram a chegar diversos tipos de situações complicadas que eu não sabia muito como conduzir e como absorver. Eu não sou um desses filhos crescidos que ficam esperneando com esse tipo de rompimento. Já na época era capaz de ver que meus pais são seres humanos, e não duas gavetas de um criado mudo compartilhado. É claro que não me fez feliz, é claro seria mais fácil um mundo sem contendas. Mas não é assim. A vida é essa que está acontecendo, que estamos vivendo, e não uma imagem irreal e supérflua de perfeição. Essa experiência, que ainda hoje traz ressonâncias e novidades, me abalou. Era viver em meio a um desmonte e ter que falar e agir tentando manter a moral elevada, ou pelo menos a sanidade. Tenho três irmãos. É curioso porque nós quatro e nossos pais, ou seja, nós seis, não somos capazes de contar a mesma história sobre aqueles anos. É como se cada um tivesse vivido isso em um universo paralelo e individual. Nós que sempre tivemos uma vida coletiva onde do umbigo de um nascia o pé do outro, vivemos essa ruptura em solidão. Não tem um de nós que não tenha se sentido sozinho. Nós éramos seis, passando pela mesma situação, mas vivendo ela de formas completamente diferentes, seja pelo grau de envolvimento, seja pelo tipo de sofrimento, seja pela forma pratica com que isso afetava o dia-a-dia. Nós estamos em um lugar melhor hoje, e seguimos nesse esforço de reconstrução familiar, de ajustes, encaixes e acomodações, não falta amor, mas ainda temos um chão para caminharmos juntos. Na época isso me causou um desinteresse por tudo. Passei a ser o tipo de pessoa incapaz de terminar qualquer projeto, mesmo que ausência, introspecção e inconstância sempre tenham sido características presentes nas minhas condutas. Não conseguia frequentar as aulas, não conseguia manter um nível de produção acadêmica e produção em artes descentes. Me comparava muito com os meus colegas o que só trazia ainda mais desanimo. O tempo foi passando, a vida se ajustando, mas depois que essa processo de desinteresse, de distração, de postergação foi startado, não consegui mais conter, retomar. Mesmo que algumas coisas mais interessantes e empolgantes conseguissem prender minha atenção era sempre algo temporário. Comecei a trabalhar na empresa da família, o que coroou meu afastamento nas aulas me tirando completamente o foco da faculdade, principalmente porque a exigência da chefe (minha mãe) era sobre-humana, e porque a própria natureza do serviço causavam um estresse desmedido. Demorei muitos anos para conseguir concluir o curso, e não conclui com orgulho, com satisfação. De novo, fiz uma fama e tive arcar com ela. Quando precisei de ajuda, as pessoas que podiam me ajudar já não botavam mais fé em mim. Eu podia ter feito diferente? Eu podia ter me vencido? Podia, talvez... Mas não consegui viver diferente, ser mais do que isso.

Nesse mesmo período uma coisa maravilhosa aconteceu. Eu conheci o príncipe do cavalo branco. Ou melhor, eu destaquei um ser humano e fabriquei uma realeza. Eu estava me afogando e não tinha onde me apoiar. Foi uma pessoa que chegou até mim em um momento muito pontual e que me deu um respiro vital. No começo do relacionamento ele tratava o meu jeito de ser como só um jeito de ser. Ele previa alguns estragos e fazia por onde prevenir. Em um certo momento os copos de vidro passaram a ficar no centro da mesa e distante de mim, porque no meu campo de ação eles estavam condenados a cair e quebrar. Minha mãe sempre foi muito absorvente e superprotetora, pós separação ela se tornou absorvente, superprotetora e, por um tempo, depressiva. Morar com essa mãe e trabalhar com essa chefe estava me enlouquecendo. Foi circunstancial me afastar disso e passar a dividir guarda-roupa com esse parceiro que encontrei. No final do relacionamento não tinha mais um copo inteiro, e eu escutei que coisas impossíveis aconteciam sempre comigo. E acontecem mesmo. A perda da pontualidade de um relacionamento vem acompanhada com o esgotamento do tempo. Não era só este o problema. Mas para explicar quem eu sou, este problema é significativo e não tem como isso não afetar as pessoas que convivem comigo. Batidas de carro, falta de firmeza na vida profissional e/ou acadêmica, um fogão ligado eternamente, um portão destrancado recorrentemente e outras distrações domesticas. Eu era essa pessoa ou estava sendo essa pessoa? As coisas impossíveis aconteciam na minha vida porque aconteciam, ou porque eu tinha esse tal jeito de ser que tornava o ambiente propício.

Esse caminho que construí, esse meu jeito de ser é problema meu, mesmo que a culpa não seja. Existe um jeito realmente meu, mas o TDAH age na minha vida como elemento potencializador, como um passo em falso, como uma desmedida.

Minha família amorteceu a queda quando esse relacionamento acabou com a mesma preocupação que tiveram quando me trocaram de colégio no comecinho de tudo. Foi muito difícil e inesperado, o que fez com que eles olhassem mais para mim. Eles são assim, me carregam no colo, ou me confiam a quem carregue com o mesmo carinho. E naquele momento eu estava voltando a ser de alguma forma responsabilidade deles. Eu já não era tão novinha, eu já tinha pose de independente, e isso só aumentava a preocupação deles, porque não é como se eles pudessem ou conseguissem fazer vigília para me proteger de mim mesma. Quando a gente passa muito tempo em um relacionamento com alguém passa existir uma confusão de contornos, quem é um, quem é outro, em que ponto ambos são um ou são nenhum. A separação representou para mim um momento de retorno. Só tinha um caminho, e esse caminho tinha destino certo, eu. Me individualizar de novo. Prestar atenção em mim. Buscar entender esse jeito de ser. Buscar força para retomar meu crescimento e os projetos que me trariam realmente felicidade e realização. Eu estava exausta de correr em círculos sem entender nada e de levar todos ao meu redor aos limites do impossível. A revelia dos protestos da minha mãe arrumei um canto pra mim e pro meu cachorro, que por sorte ainda sobrevive, e parei de dirigir. Em seguida fui atrás de fazer algo que deveria ter feito a pelo menos seis anos atrás, tratamento. Não, eu não acordei um dia e falei: acho que vou me tratar. Foram meus pais e suas intuições, preocupações e amor que me orientaram. Nesse momento eu não fazia ideia do quando a vida podia ser diferente. Fui no psicólogo que me ajudou a desenvolver mecanismos para o meu dia-a-dia, como organizar meu tempo, como lembrar de dar comida pro cachorro, como não esquecer a panela de pressão no fogo, enfim, meu psicólogo me ajudou a sobreviver sem riscos de vida. Mas ainda faltava uma liga, ainda faltava fazer a ponte entre o tico e o teco. Mas, de novo, eu não acordei um dia e falei: acho que vou procurar um médico. E até neste momento eu ainda me sinto desconfortável porque não é qualquer médico, é um psiquiatra, e procurar um psiquiatra era como assumir que realmente tem algo faltando em mim. Fui cumprindo uma exigência do meu pai que estava muito cansado de me ver sempre desorientada. Bom, o médico confirmou, realmente tem algo faltando em mim, e faltando muito, e está tudo bem.

 O TDAH acontece em função de uma quantidade muito baixa de dopamina. Quando eu comecei o tratamento consegui localizar em mim uma postura não reativa perante a vida, foi como se eu tivesse passado ela toda enxergado nublado, como se meus olhos não estivessem abertos o suficiente. É uma mudança de base e uma relação com a vida completamente diferente. Eu ainda cometo alguns erros, algumas distrações, principalmente quando algum fator externo me afeta psicologicamente. Sem vigilância, cair no erro de postergar é fácil. Mas o tratamento me dá justamente a possibilidade de vigilância, coisa que nunca tive, nunca fui. Eu tenho um milhão de fios soltos que preciso amarrar, e pela primeira vez, eu já comecei, não deixei para amanhã. Escrever e divulgar esse texto me deixa em uma situação muito exposta, mas as vezes é preciso se expor para se libertar. TDAH não é uma sorte, não é uma genialidade, não faz ninguém especial. E se não tratado, pode te deixar nos piores lugares.

TDAH está presente em todas as fases da vida da pessoa, da criança ao adulto. Quanto antes diagnosticado, menos atravancada a vida se constrói.

Ufa! Agora é retomada e reconstrução.